Por Jacqueline Guerra
Naturóloga,
especialista em Saúde Integrativa da Mulher
com Ayurveda e Medicina Chinesa
Publicado em julho de 2026
Li o livro A Jornada da Heroína, de Maureen Murdock, há alguns anos. E como toda leitura que realmente marca, ela não ficou parada na estante.
Foi voltando. Em espiral. Cada vez mais integrada ao que eu vivo na prática com as mulheres que acompanho e dentro do meu próprio ciclo.
Fui percebendo, aos poucos, como essa jornada se entrelaça com o que as medicinas orientais mapearam há milênios sobre o ciclo feminino. Não é uma conexão óbvia. Fui tecendo dentro dos atendimentos, dentro das conversas, dentro dos momentos em que uma mulher chegava até mim nos atendimentos e consultas.
Hoje quero compartilhar essa lente com você.
A história que nos contaram
e a que precisamos contar para nós mesmas
Joseph Campbell dedicou a vida a mapear a jornada universal do herói. Presente em mitos, contos e narrativas de todas as culturas, a estrutura é sempre a mesma: o herói parte, enfrenta provações, vence o dragão e volta transformado com um elixir para o mundo.
É uma jornada linear. Ascendente. Orientada para fora e para cima.
Durante décadas, essa foi a única estrutura que tínhamos para entender transformação e crescimento. E nós, mulheres, fomos educadas dentro dela: a conquistar, a subir, a provar valor no mundo externo.
Mas uma mulher percebeu que algo estava faltando.
Maureen Murdock, terapeuta junguiana e estudiosa de Campbell, observou que suas pacientes chegavam exatamente com esse perfil: realizadas, bem-sucedidas, reconhecidas. E mesmo assim carregavam um vazio profundo que nenhuma conquista conseguia preencher.
A jornada do herói não descrevia a experiência feminina. Então ela escreveu a dela.
Como sempre somos nós que precisamos fazer isso.
A jornada feminina não é linear, é cíclica e ela desce
Essa é a diferença essencial que Murdock identificou:
A jornada do herói sobe. A jornada da heroína desce.
Não porque a mulher é fraca ou incapaz de conquistar o mundo. Mas porque o feminino cria a partir do interior, do escuro, do vazio, do recolhimento.
Pense no útero: escuro, profundo, aparentemente vazio. E é exatamente ali que a vida nasce.
Seja para gestar uma nova vida, seja para gestar uma ideia que vem da sua essência, seja para atravessar uma grande transição, essa potência precisa ser gestada no escuro antes de emergir para a luz.
Quando falo de ciclo menstrual no meu trabalho, estou sempre falando de ciclo fértil: da potência criativa que pulsa em toda mulher, queira ou não engravidar. Porque a fertilidade feminina não é só reprodutiva. É criativa. É existencial.
O que as medicinas orientais sempre souberam
O Ayurveda e a Medicina Chinesa não precisaram de Murdock para saber que o feminino é cíclico. Eles mapearam isso há milênios e é exatamente o que conecta essas tradições à jornada da heroína de uma forma que me arrepia.
YIN e YANG: a dança do ciclo fértil
Na Medicina Chinesa, toda a existência pulsa entre dois polos complementares: YIN e YANG.
YANG é expansão, luz, calor, ação, movimento para fora.
YIN é recolhimento, escuro, profundidade, nutrição, movimento para dentro.
Nenhum polo é melhor que o outro. Os dois são necessários. A vida saudável e o ciclo saudável: é a dança entre eles.
O ciclo fértil da mulher vive essa dança a cada mês:
🔆 Fase folicular e ovulação → polo Yang
É o ápice. A expansão. O óvulo que sai, que vai ao encontro do mundo. É a mulher em sua potência mais visível: comunicativa, criativa, extrovertida, presente. Na Jornada da Heroína, é o momento da ida para o mundo, da conquista, da identificação com o masculino.
🌑 Fase lútea e menstruação → polo Yin
É a descida. O recolhimento. O corpo que se volta para dentro. A energia que diminui não por fraqueza, mas por sabedoria: o organismo priorizando a nutrição dos tecidos mais profundos. Na Jornada da Heroína, é a queda, o submundo, o encontro com o que estava esperando no escuro.
O problema começa quando vivemos permanentemente no Yang — produzindo, entregando, performando, provando valor — sem nunca permitir o retorno ao Yin. Sem nunca descer.
Ojas e a essência que se depleta
No Ayurveda, existe um conceito que ilumina muito esse processo: Ojas.
Ojas é nossa essência vital mais sutil. É o produto final de uma nutrição completa, não apenas física, mas emocional e energética. É o que nos dá imunidade, vitalidade, clareza mental, equilíbrio hormonal e, especialmente, a capacidade reprodutiva em seu sentido mais amplo.
Quando vivemos em ritmo Yang permanente — sem descanso, sem recolhimento, sem nutrição profunda — o Ojas se depleta. E quando o Ojas está esgotado, o corpo fala.
Primeiro em voz baixa: uma TPM mais intensa, um sono menos restaurador, uma libido que some.
Depois mais alto: uma cólica que não passa, uma SOP, uma endometriose, uma menopausa precoce.
Não é punição. É comunicação.
É o corpo dizendo: você esqueceu de descer. Você esqueceu do Yin. Agora eu vou fazer isso por você.
Os estágios da Jornada da Heroína
A jornada mapeada por Murdock tem 10 estágios. Trago aqui um recorte — os que dialogam mais diretamente com o ciclo fértil e com o que observo na saúde das mulheres.
(Para conhecer a jornada completa, recomendo o livro: A Jornada da Heroína — Maureen Murdock)
1. Separação do feminino
A mulher começa a rejeitar, consciente ou inconscientemente, os aspectos do feminino que o mundo ao redor desvalorizou. Intuição, ciclicidade, emoção, recolhimento. Ela abraça o Yang porque é o que recebe aprovação.
No ciclo, é como se a mulher vivesse eternamente na fase ovulatória — sempre disponível, sempre produtiva, sempre para fora.
2. Identificação com o masculino e coleta de aliados
Conquistas, realizações, reconhecimento. A mulher vai ao mundo e o mundo a aplaude. Mas dentro, silenciosamente, algo vai sendo esquecido.
3. Estrada das provas
Desafios, competição, provação contínua. O corpo vai acumulando o custo desse ritmo — muitas vezes por anos — antes de dizer qualquer coisa.
4. A queda — descida ao submundo
Este é o estágio que mais aparece nos meus atendimentos.
Algo colapsa. Pode ser o corpo: uma doença, um diagnóstico, um ciclo que para. Pode ser a vida: uma perda, uma crise, uma sensação de que o chão cedeu. Pode ser sutil: uma tristeza sem nome, um cansaço que o descanso não resolve.
Na linguagem da Medicina Chinesa: o Yin reclamou o seu espaço. No Ayurveda: o Ojas chegou ao limite. Em Murdock: a heroína chegou ao submundo.
Uma TPM intensa, uma cólica insistente, uma SOP, uma endometriose, uma menopausa precoce — muitas vezes são a linguagem dessa descida. Não como punição. Como consequência de necessidades não atendidas por tempo demais. E ao mesmo tempo, como um convite: pare, volte para dentro, recalcule a rota.
O corpo não trai. Ele comunica.
5. Urgência de resgatar o feminino
É quando a mulher me procura. Não sempre, mas muitas vezes é exatamente aqui que o encontro acontece.
Algo nela sabe que existe um outro caminho. Que o corpo está pedindo algo diferente do que ela tem oferecido. Que existe um feminino profundo, esquecido, esperando ser resgatado.
Esse é o chamado para voltar. Para ouvir. Para nutrir o que foi abandonado.
6. Integração: o sagrado casamento interior
A jornada não termina com a escolha entre feminino e masculino, entre Yang e Yin, entre mundo interno e externo.
Ela termina com a integração dos dois.
A mulher que aprendeu a descer — que conhece o submundo e sobreviveu — carrega uma sabedoria que não existe em nenhuma conquista externa. Ela sabe dançar entre os polos. Ela sabe quando expandir e quando recolher. Ela sabe ouvir o próprio ciclo.
E esse é exatamente o objetivo do tratamento integrativo: não eliminar o Yang, não suprimir os sintomas — mas restaurar a dança.
Ciclos menores e ciclos maiores
Existe um conceito que está no centro do meu trabalho e que essa jornada ilumina completamente:
Os ciclos menores espelham os ciclos maiores.
O que acontece nos 28 dias do ciclo menstrual é um ensaio do que virá nas grandes transições da vida — o puerpério, a perimenopausa, a menopausa, as viradas existenciais que cada mulher atravessa.
A descida da fase lútea ensina a descida da menopausa. O recolhimento da menstruação ensina o recolhimento do puerpério. O renascimento do primeiro dia do ciclo ensina que toda grande transição tem um outro lado.
A mulher que aprende a ouvir o ciclo pequeno desenvolve uma bússola para os ciclos grandes. Ela reconhece a descida quando ela chega, não como fracasso, mas como passagem.
De mulher para mulher
Existe algo muito poderoso que acontece quando uma mulher reconhece a jornada de outra.
Quando uma interagente me conta que está no meio de uma descida, com o corpo falando alto, com a vida pedindo pausa, posso dizer “eu conheço esse lugar, eu também estive lá”. Não sou só profissional. Sou mulher que também percorreu essa jornada.
E é por isso que esse trabalho importa tanto para mim.
Nós precisamos de mapas que descrevam nossa experiência de verdade. Não a jornada do herói que sobe, mas a jornada da heroína que desce e volta transformada. Precisamos de tradições que honrem nossa ciclicidade, e o Ayurveda e a Medicina Chinesa fazem exatamente isso.
Precisamos umas das outras para reconhecer que a descida não é o fim. É o início de algo mais profundo.
Continue essa jornada
Nos próximos artigos vou aprofundar as condições que muitas vezes aparecem no meio dessa descida:
SOP, endometriose, adenomiose, mioma, candidíase.
Sempre com a lente integrativa da Naturologia, Ayurveda e Medicina Chinesa.
Cada fase da sua jornada tem um caminho de cuidado
Se você se reconheceu em algum momento desse carrossel, saiba que acompanho mulheres em todas as fases dos ciclos femininos — dos pequenos aos grandes.
Clique em cada um abaixo para saber mais:
🌸 Jardim Cíclico — para quem quer cuidar do ciclo menstrual, dos hormônios e das condições como SOP, endometriose, mioma, TPM e candidíase
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🌱 Soul Fértil — para quem está na jornada da fertilidade e da pré-concepção
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🤰 Gestação Natural e Janela Sagrada — para quem está grávida ou no [CLIQUE AQUI]
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